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Teste busca explicar a supermemória de idosos com mais de 80 anos

Com o envelhecimento da população brasileira e o aumento do número de pessoas com mais de 80 anos, os pesquisadores querem entender o que faz os cérebros dos superidosos serem mais resistentes aos efeitos do avanço da idade, investigação que pode dar pistas sobre como prevenir ou adiar quadros de Alzheimer ou outras demências. Estudar isso abre a perspectiva de saber se essa característica é mero acaso ou se há algo ao longo da vida que fez com que esses superidosos obtivessem um envelhecimento bem-sucedido. O Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas (HC) estuda casos identificados como superidosos e busca mais voluntários. Os primeiros testes realizados pelos pesquisadores  são os neuropsicológicos, capazes de mostrar o desempenho desses pacientes em várias funções cerebrais.

Jornal da USP no Ar conversou com o pesquisador desse tema, doutor Adalberto Studart Neto, da Divisão de Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP ( FMUSP). Ele comenta como foi o início e o desenvolvimento do projeto. “Desde 2017 começamos um projeto da Divisão de Clínica Neurológica com o Instituto de Radiologia, nesse sentido de buscar idosos com mais de 80 anos com uma memória excepcional. E o desempenho de memória semelhante ao de pessoas de 50, 60 anos. Já avaliamos mais de 100 idosos e é uma população bem selecionada, de tal forma que, com mais de 100 idosos, nós conseguimos 15 pessoas que teriam esse critério de envelhecimento excepcional, os superidosos.”

Para identificar os “superpoderes” de memória que caracterizam esse envelhecimento são feitos alguns testes, seguindo os critérios com os voluntários. “Fazemos uma lista de palavras. São 15 palavras que a pessoa tem que memorizar e, 30 minutos depois, ela deve recordar essas palavras. Uma pessoa de 80 anos normalmente — sem apresentar demência ou mal de Alzheimer — lembra de seis. Uma pessoa com 50 anos normalmente lembra de nove dessas 15 palavras. O superidoso seria essa pessoa que, por exemplo, lembraria de nove das 15 palavras. Tivemos aqui um indivíduo lembrando de 13, o que é um desempenho superior ao de pessoas de faixa etária intermediária”, diz Studart. Ele também explica que, com o envelhecimento, a tendência é a memória ter uma atividade menor do que já apresentada.

Segundo Studart, o que se sabe até então sobre as causas desse declínio de memória em alguns idosos pode estar relacionado com a falta de um gene. “Do ponto de vista genético, ainda não se identificou exatamente um fator responsável. Mas eles têm uma menor incidência de um gene chamado apolipoproteína E no épsilon (ε) 4. É um gene que todos nós temos e o tipo 4 está associado ao mal de Alzheimer, e os estudos que fizemos previamente mostraram que essas pessoas têm menor incidência.” Também foi observado que esses idosos têm alta escolaridade ou desempenham alguma tarefa no trabalho que exige capacidade cognitiva. Há também medidas que podem ser adotadas para prevenir esse declínio, como exercícios de atividade intelectual — estudo, leitura, entre outros, atividades físicas — principalmente aeróbica — e dieta.

Ainda há demanda por voluntários que queiram participar do estudo. Os interessados podem mandar e-mail para o endereço eletrônico ceredic@uol.com.br , do Centro de Referência em Distúrbios Cognitivos (Ceredic) do Hospital das Clínicas.

Do Jornal da USP

Postado em: 15/02/2019